Primas de Sapucaia!
por Machado de Assis |
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Há umas ocasiões
oportunas e fugitivas, em que o acaso nos inflige duas ou três primas de
Sapucaia; outras vezes, ao contrário, as primas de Sapucaia são antes um
benefício do que um infortúnio.
Era à porta de uma
igreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e Rosa tomassem água benta,
para conduzi-las à nossa casa, onde estavam hospedadas. Tinham vindo de
Sapucaia, pelo carnaval, e demoraram-se dois meses na corte. Era eu que as
acompanhava a toda a parte, missas, teatros, Rua do Ouvidor, porque minha mãe,
com o seu reumático, mal podia mover-se dentro de casa, e elas não sabiam andar
sós. Sapucaia era a nossa pátria comum. Embora todos os parentes estivessem
dispersos, ali nasceu o tronco da família. Meu tio José Ribeiro, pai destas
primas, foi o único, de cinco irmãos, que lá ficou lavrando a terra e figurando
na política do lugar. Eu vim cedo para a corte, de onde segui a estudar e
bacharelar-me em S.
Paulo. Voltei uma só vez a Sapucaia, para pleitear uma
eleição, que perdi.
Rigorosamente,
todas estas notícias são desnecessárias para a compreensão da minha aventura;
mas é um modo de ir dizendo alguma coisa, antes de entrar em matéria, para a
qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a rédea à pena, e
ela que vá andando, até achar entrada. Há de haver alguma; tudo depende das
circunstâncias, regra que tanto serve para o estilo como para a vida; palavra
puxa palavra, uma idéia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma
revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs as suas
espécies.
Portanto, água
benta e porta de igreja. Era a igreja de S. José. A missa acabara; Claudina e
Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo polegar, molhado na água benta e
descalçado unicamente para esse gesto. Depois ajustaram os manteletes, enquanto
eu, ao portal, ia vendo as damas que saíam. De repente, estremeço, inclino-me
para fora, chego mesmo a dar dois passos na direção da rua.
— Que foi, primo?
— Nada, nada.
Era uma senhora,
que passara rentezinha com a igreja, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no
chapelinho de sol; ia pela Rua da Misericórdia acima. Para explicar a minha
comoção, é preciso dizer que era a segunda vez que a via. A primeira foi no
Prado Fluminense, dois meses antes, com um homem que, pelos modos, era seu
marido, mas tanto podia ser marido como pai. Estava então um pouco de
espavento, vestida de escarlate, com grandes enfeites vistosos, e umas argolas
demasiado grossas nas orelhas; mas os olhos e a boca resgatavam o resto.
Namoramos às bandeiras despregadas. Se disser que saí dali apaixonado, não meto
a minha alma no inferno, porque é a verdade pura. Saí tonto, mas saí também
desapontado, perdi-a de vista na multidão. Nunca mais pude dar com ela, nem
ninguém me soube dizer quem fosse.
Calcule-se o meu
enfado, vendo que a fortuna vinha trazê-la outra vez ao meu caminho, e que umas
primas fortuitas não me deixavam lançar-lhe as mãos. Não será difícil
calculá-lo, porque estas primas de Sapucaia tomam todas as formas, e o leitor,
se não as teve de um modo, teve-as de outro. Umas vezes copiam o ar
confidencial de um cavalheiro informado da última crise do ministério, de todas
as causas aparentes ou secretas, dissensões novas ou antigas, interesses
agravados, conspiração, crise. Outras vezes, enfronham-se na figura daquele
eterno cidadão que afirma de um modo ponderoso e abotoado, que não há leis sem
costumes, nisi lege sine moribus. Outras afivelam a máscara de um Dangeau de
esquina, que nos conta miudamente as fitas e rendas que esta, aquela,
aqueloutra dama levara ao baile ou ao teatro. E durante esse tempo, a Ocasião
passa, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de sol: passa, dobra a
esquina, e adeus... O ministério esfacelava-se; malinas e bruxelas; nisi lege
sine moribus...
Estive a pique de
dizer às primas, que se fossem embora; morávamos na Rua do Carmo, não era
longe; mas abri mão da idéia. Já na rua pensei também em deixá-las na igreja, à
minha espera, e ir ver se agarrava a Ocasião pela calva. Creio mesmo que
cheguei a parar um momento, mas rejeitei igualmente esse alvitre e fui andando.
Fui andando com
elas para o lado oposto ao da minha incógnita. Olhei para trás repetidas vezes,
até perdê-la numa das curvas da rua, com os olhos no chão, como quem reflete,
devaneia ou espera uma hora marcada. Não minto dizendo que esta última idéia
trouxe-me a emoção do ciúme. Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de
mulheres casadas. Não importa que entre mim e aquela dama existisse apenas uma
contemplação fugitiva de algumas horas; desde que a minha personalidade ia para
ela, a partilha tornava-se-me insuportável. Sou também imaginoso; engenhei logo
uma aventura e um aventureiro, dei-me ao prazer mórbido de afligir-me sem
motivo nem necessidade. As primas iam adiante, e falavam-me de quando em
quando; eu respondia mal, se respondia alguma coisa. Cordialmente, execrava-as.
Ao chegar à porta
de casa, consultei o relógio, como se tivesse alguma coisa que fazer; depois
disse às primas que subissem e fossem almoçando. Corri à Rua da Misericórdia.
Fui primeiro até à Escola de Medicina; depois voltei e vim até à Câmara dos
Deputados, então mais devagar, esperando vê-la ao chegar a cada curva da rua;
mas nem sombra. Era insensato, não era? Todavia, ainda subi outra vez a rua,
porque adverti que, a pé e devagar, mal teria tempo de ir em meio da Praia de
Santa Luzia, se acaso não parara antes; e aí fui, rua acima e praia fora, até
ao convento da Ajuda. Não encontrei nada, coisa nenhuma. Nem por isso perdi as
esperanças; arrepiei caminho e vim, a passo lento ou apressado, conforme se me
afigurava que era possível apanhá-la adiante, ou dar tempo a que saísse de alguma
parte. Desde que a minha imaginação reproduzia a dama, todo eu sentia um abalo,
como se realmente tivesse de vê-la daí a alguns minutos. Compreendi a emoção
dos doidos.
Entretanto, nada.
Desci a rua sem achar o menor vestígio da minha incógnita. Felizes os cães, que
pelo faro dão com os amigos! Quem sabe se não estaria ali bem perto, no
interior de alguma casa, talvez a própria casa dela? Lembrou-me indagar; mas de
quem, e como? Um padeiro, encostado ao portal, espiava-me; algumas mulheres
faziam a mesma coisa enfiando os olhos pelos postigos. Naturalmente
desconfiavam do transeunte, do andar vagaroso ou apressado, do olhar
inquisidor, do gesto inquieto. Deixei-me ir até à Câmara dos Deputados, e parei
uns cinco minutos, sem saber que fizesse. Era perto de meio-dia. Esperei mais
dez minutos, depois mais cinco, parado, com a esperança de vê-la; afinal,
desesperei e fui almoçar.
Não almocei em casa. Não queria ver os
demônios das primas, que me impediram de seguir a dama incógnita. Fui a um
hotel. Escolhi uma mesa no fim da sala, e sentei-me de costas para as outras;
não queria ser visto nem conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi
alguns jornais, mas confesso que não li nada seguidamente, e apenas entendi
três quartas partes do que ia lendo. No meio de uma notícia ou de um artigo,
escorregava-me o espírito e caía na Rua da Misericórdia, à porta da igreja,
vendo passar a incógnita, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de
sol.
A última vez que
me aconteceu essa separação da OUTRA e da BESTA, estava já no café, e tinha
diante de mim um discurso parlamentar. Achei-me ainda uma vez à porta da
igreja; imaginei então que as primas não estavam comigo, e que eu seguia atrás
da bela dama. Assim é que se consolam os preteridos da loteria; assim é que se fartam
as ambições malogradas.
Não me peçam
minúcias nem preliminares do encontro. Os sonhos desdenham as linhas finas e o
acabado das paisagens; contentam-se de quatro ou cinco brochadas grossas, mas
representativas. Minha imaginação galgou as dificuldades da primeira fala, e
foi direita à Rua do Lavradio ou dos Inválidos, à própria casa de Adriana.
Chama-se Adriana. Não viera à Rua da Misericórdia por motivos de amores, mas a
ver alguém, uma parenta ou uma comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e teve
igual comoção. Escrevi-lhe; respondeu-me. Nossas pessoas foram uma para a outra
por cima de uma multidão de regras morais e de perigos. Adriana é casada; o
marido conta cinqüenta e dois anos, ela trinta imperfeitos. Não amou nunca, não
amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer à família. Eu ensinei-lhe ao
mesmo tempo o amor e a traição; é o que ela me diz nesta casinha que aluguei
fora da cidade, de propósito para nós.
Ouço-a embriagado.
Não me enganei; é a mulher ardente e amorosa, qual me diziam os seus olhos,
olhos de touro, como os de Juno, grandes e redondos. Vive de mim e para mim.
Escrevemo-nos todos os dias; e, apesar disso, quando nos encontramos, na
casinha, é como se mediara um século. Creio até que o coração dela ensinou-me
alguma coisa, embora noviço, ou por isso mesmo. Nesta matéria desaprende-se com
o uso e o ignorante é que é douto. Adriana não dissimula a alegria nem as
lágrimas; escreve o que pensa, conta o que sente; mostra-me que não somos dois,
mas um, tão-somente um ente universal, para quem Deus criou o sol e as flores,
o papel e a tinta, o correio e as carruagens fechadas.
Enquanto ideava
isto, creio que acabei de beber o café; lembra-me que o criado veio à mesa e
retirou a xícara e o açucareiro. Não sei se lhe pedi fogo, provavelmente viu-me
com o charuto na mão e trouxe-me fósforos.
Não juro, mas
penso que acendi o charuto, porque daí a um instante, através de um véu de
fumaça, vi a cabeça meiga e enérgica da minha bela Adriana, encostada a um
sofá. Eu estou de joelhos, ouvindo-lhe a narração da última rusga do marido.
Que ele já desconfia; ela sai muitas vezes, distrai-se, absorve-se, aparece-lhe
triste ou alegre, sem motivo, e o marido começa a ameaçá-la. Ameaçá-la de quê?
Digo-lhe que, antes de qualquer excesso, era melhor deixá-lo, para viver
comigo, publicamente, um para o outro. Adriana escuta-me pensativa, cheia de
Eva, namorada do demônio, que lhe sussurra de fora o que o coração lhe diz de
dentro. Os dedos afagam-me os cabelos.
— Pois sim! pois
sim!
Veio no dia
seguinte, consigo mesma, sem marido, sem sociedade, sem escrúpulos, tão-somente
consigo, e fomos dali viver juntos. Nem ostentação, nem resguardo. Supusemo-nos
estrangeiros, e realmente não éramos outra coisa; falávamos uma língua, que
nunca ninguém antes falara nem ouvira. Os outros amores eram, desde séculos,
verdadeiras contrafações; nós dávamos a edição autêntica. Pela primeira vez,
imprimia-se o manuscrito divino, um grosso volume que nós dividíamos em tantos
capítulos e parágrafos quantas eram as horas do dia ou os dias da semana. O
estilo era tecido de sol e música; a linguagem compunha-se da fina flor dos
outros vocabulários. Tudo o que neles existia, meigo ou vibrante, foi extraído
pelo autor para formar esse livro único — livro sem índice, porque era infinito
— sem margens, para que o fastio não viesse escrever nelas as suas notas — sem
fita, porque já não tínhamos precisão de interromper a leitura e marcar a
página.
Uma voz chamou-me
à realidade. Era um amigo que acordara tarde, e vinha almoçar. Nem o sonho me
deixava esta outra prima de Sapucaia! Cinco minutos depois despedi-me e saí;
eram duas horas passadas.
Vexa-me dizer que
ainda fui à Rua da Misericórdia, mas é preciso narrar tudo: fui e não achei
nada. Voltei nos dias seguintes sem outro lucro, além do tempo perdido.
Resignei-me a abrir mão da aventura, ou esperar a solução do acaso. As primas
achavam-me aborrecido ou doente; não lhes disse que não. Daí a oito dias,
foram-se embora, sem me deixar saudades; despedi-me delas como de uma febre
maligna.
A imagem da minha
incógnita não me deixou durante muitas semanas. Na rua, enganei-me várias
vezes. Descobria ao longe uma figura, que era tal qual a outra; picava os
calcanhares, até apanhá-la e desenganar-me. Comecei a achar-me ridículo; mas lá
vinha uma hora ou um minuto, uma sombra ao longe, e a preocupação revivia.
Afinal vieram outros cuidados, e não pensei mais nisso.
No princípio do
ano seguinte, fui a Petrópolis; fiz a viagem com um antigo companheiro de
estudos, Oliveira, que foi promotor em Minas Gerais , mas abandonara ultimamente a
carreira por ter recebido uma herança. Estava alegre como nos tempos da
academia; mas de quando em quando calava-se, olhando para fora da barca ou da
caleça, com a atonia de quem regala a alma de uma recordação, de uma esperança
ou de um desejo. No alto da serra perguntei-lhe para que hotel ia; respondeu
que ia para uma casa particular, mas não me disse aonde, e até desconversou.
Cuidei que me visitaria no dia seguinte; mas nem me visitou, nem o vi em parte
alguma. Outro colega nosso ouvira dizer que ele tinha uma casa para os lados da
Renânia.
Nenhuma destas
circunstâncias voltaria à memória, se não fosse a notícia que me deram dias
depois. Oliveira tirara uma mulher ao marido, e fora refugiar-se com ela em Petrópolis. Deram-me
o nome do marido e o dela. O dela era Adriana. Confesso que, embora o nome da
outra fosse pura invenção minha, estremeci ao ouvi-lo; não seria a mesma
mulher? Vi logo depois que era pedir muito ao acaso. Já faz bastante esse pobre
oficial das coisas humanas, concertando alguns fios dispersos; exigir que os
reate a todos, e com os mesmos títulos, é saltar da realidade na novela. Assim
falou o meu bom senso, e nunca disse tão gravemente uma tolice, pois as duas
mulheres eram nada menos que a mesmíssima.
Vi-a três semanas
depois, indo visitar o Oliveira, que viera doente da corte. Subimos juntos na
véspera; no meio da serra, começou ele a sentir-se incomodado; no alto estava
febril. Acompanhei-o no carro até a casa, e não entrei, porque ele dispensou-me
o incômodo. Mas no dia seguinte fui vê-lo, um pouco por amizade, outro pouco
por avidez de conhecer a incógnita. Vi-a; era ela, era a minha, era a única
Adriana.
Oliveira sarou
depressa, e, apesar do meu zelo em visitá-lo, não me ofereceu a casa;
limitou-se a vir ver-me no hotel. Respeitei-lhe os motivos; mas eles mesmos é
que faziam reviver a antiga preocupação. Considerei que, além das razões de
decoro, havia da parte dele um sentimento de ciúme, filho de um sentimento de
amor, e que um e outro podiam ser a prova de um complexo de qualidades finas e
grandes naquela mulher. Isto bastava a transtornar-me; mas a idéia de que a
paixão dela não seria menor que a dele, o quadro desse casal que fazia uma só
alma e pessoa, excitou em mim todos os nervos da inveja. Baldei esforços para
ver se metia o pé na casa; cheguei a falar-lhe do boato que corria; ele sorria
e tratava de outra coisa.
Acabou a estação
de Petrópolis, e ele ficou. Creio que desceu em julho ou agosto. No fim do ano
encontramo-nos casualmente; achei-o um pouco taciturno e preocupado. Vi-o ainda
outras vezes, e não me pareceu diferente, a não ser que, além de taciturno,
trazia na fisionomia uma longa prega de desgosto. Imaginei que eram efeitos da
aventura, e, como não estou aqui para empulhar ninguém, acrescento que tive uma
sensação de prazer. Durou pouco; era o demônio que trago em mim, e costuma
fazer desses esgares de saltimbanco. Mas castiguei-o depressa, e pus no lugar
dele o anjo, que também uso, e que se compadeceu do pobre rapaz, qualquer que fosse
o motivo da tristeza.
Um
vizinho dele, amigo nosso, contou-me alguma coisa, que me confirmou a suspeita
de desgostos domésticos; mas foi ele mesmo quem me disse tudo, um dia,
perguntando-lhe eu, estouvadamente, o que é que tinha que o mudara tanto.
— Que hei de ter?
Imagina tu que comprei um bilhete de loteria, e nem tive, ao menos, o gosto de
não tirar nada; tirei um escorpião.
E,
como eu franzisse a testa interrogativamente:
— Ah! se soubesses
metade só das coisas que me têm acontecido! Tens tempo? Vamos aqui ao Passeio
Público.
Entramos
no jardim, e metemo-nos por uma das alamedas. Contou-me tudo. Gastou duas horas
em desfiar um rosário infinito de misérias. Vi através da narração duas índoles
incompatíveis, unidas pelo amor ou pelo pecado, fartas uma da outra, mas
condenadas à convivência e ao ódio. Ele nem podia deixá-la nem suportá-la.
Nenhuma estima, nenhum respeito, alegria rara e impura; uma vida gorada.
— Gorada, repetia
ele, gesticulando afirmativamente com a cabeça. Não tem que ver; a minha vida
gorou. Hás de lembrar-te dos nossos planos da academia, quando nos propúnhamos,
tu a ministro do Império, eu da Justiça. Podes guardar as duas pastas; não
serei nada, nada. O ovo, que devia dar uma águia, não chega a dar um frango.
Gorou completamente. Há ano e meio que ando nisso, e não acho saída nenhuma;
perdi a energia...
Seis
meses depois, encontrei-o aflito e desvairado. Adriana deixara-o para ir
estudar geometria com um estudante da antiga Escola Central. Tanto melhor,
disse-lhe eu. Oliveira olhou para o chão envergonhado; despediu-se, e correu em
procura dela. Achou-a daí a algumas semanas, disseram as últimas um ao outro, e
no fim reconciliaram-se. Comecei então a visitá-los, com a idéia de os separar
um do outro. Ela estava ainda bonita e fascinante; as maneiras eram finas e
meigas, mas evidentemente de empréstimo, acompanhadas de umas atitudes e
gestos, cujo intuito latente era atrair-me e arrastar-me.
Tive
medo e retraí-me. Não se mortificou; deitou fora a capa de renda, restituiu-se
ao natural. Vi então que era ferrenha, manhosa, injusta, muita vez grosseira;
em alguns lances notei-lhe uma nota de perversidade. Oliveira, nos primeiros
tempos, para fazer-me crer que mentira ou exagerara, suportava tudo rindo; era
a vergonha da própria fraqueza. Mas não pôde guardar a máscara; ela
arrancou-lha um dia, sem piedade, denunciando as humilhações em que ele caía,
quando eu não estava presente. Tive nojo da mulher e pena do pobre-diabo.
Convidei-o abertamente a deixá-la, ele hesitou, mas prometeu que sim.
— Realmente, não
posso mais...
Combinamos tudo;
mas no momento da separação, não pôde. Ela embebeu-lhe novamente os seus
grandes olhos de touro e de basilisco, e desta vez — ó minhas queridas primas
de Sapucaia! —, desta vez para só deixá-lo exausto e morto.
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